Esse blog e grande parte do caminho que eu venho trilhando nas minhas praticas de trabalho foram norteados pelo questionamento de uma criança sobre o funk.
Abaixo um resumo do que falo com mais detalhes no projeto defendido em junho de 2013 no IFRJ, sobre a experiência. Em breve (e sempre), atualizações do rumo tomado.
“E FUNK, PODE?”
Ressignificação do cotidiano pela analise e experimentação da narrativa poética do funk.
A experiência das oficinas de contação de historias com as crianças na Maré.
Fui recrutada como contadora de história pela ONG
Redes da Maré, em agosto de 2011, para trabalhar no Programa Criança Petrobras, no Complexo da Maré (PCP Maré). Segundo o projeto, o PCP Maré “tem como objetivo principal contribuir para a melhoria da qualidade da educação no conjunto de favelas da Maré, com foco na valorização da escola pública, de modo a impactar positivamente em médio e longo prazos os indicadores de desenvolvimento humano na região, onde vivem mais de 130 mil habitantes. O Programa Criança Petrobras atua na Maré desde 1999, e está na sua 12ª edição, correspondente ao biênio 2012-2014, implementado pela ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, com o apoio da Secretaria Municipal de Educação e de parceiros locais, e recursos do Programa “Petrobras Desenvolvimento e Cidadania”.1
Nesse período em que atuei no Programa, de agosto de 2011 até janeiro de 2012, as atividades aconteciam em sete escolas públicas da Maré (os Cieps: Elis Regina, Min. Gustavo Capanema, Hélio Scmidt e Leonel de Moura Brizola, e as Escolas Municipais: Bahia, Tenente General Napion e Armando de Salles Oliveira), na Creche Comunitária Cléia Santos de Oliveira, na Biblioteca Infantil Maria Clara Machado e na própria sede da Redes da Maré, contando com 32 educadores em uma equipe de 60 pessoas envolvidas diretamente no projeto.”2
Alocada em uma dessas escolas, fui com o objetivo inicial de trabalhar as narrativas orais e literárias nas oficinas da Sala de Leitura, duas vezes por semana, às terças e quinta-feiras, pela manhã; e na Biblioteca Infantil Maria Clara Machado (Rua Sargento Silva Nunes, 1012 Nova Holanda - Complexo da Maré), em algumas tardes de sábado.
No CIEP atendi a onze turmas, do primeiro ao quinto anos do ensino fundamental.
Na escola, após analisarem meu currículo e constatarem que cursava a Especialização em Ensino de Histórias e Culturas Africanas e Afro-brasileiras no IFRJ, tanto a Coordenação da ONG na escola como a Coordenação Pedagógica do CIEP se interessaram no possível trabalho especifico envolvendo a aplicação da Lei 10.639/03 que eu poderia desenvolver; pois, segundo a própria coordenação da escola, havia certa dificuldade em implementar a lei.
Citei parte de meu repertório de lendas e mitos africanos e afro-brasileiros e concordamos em inclui-los sempre na programação das atividades de Contação de Histórias, para enfim colaborar com a aplicação da Lei.
Entretanto, coloquei que no primeiro dia, seria para mim imprescindível para conhecer as crianças começar com uma atividade que permitisse me apresentar e aproximar, sondar os interesses dos alunos para, a partir do levantamento e análise das informações colhidas, adequar o planejamento das atividades a fim de que estas atendessem também aos interesses e necessidades deles. Com isso, poderíamos experimentar as oficinas de incentivo à leitura um momento lúdico e produtivo de aprendizagem.
Foi durante a dinâmica de apresentação que, conheci as turmas e minha proposta de trabalho foi totalmente atravessada pela vida.
As primeiras oficinas foram na sala de aula, pois a sala de leitura estava passando por um período de restruturação, o que nos impediu, pro exemplo, de trabalhar em roda.
Dinâmica: “Por um bom motivo”
Material Utilizado:
• Caixa de Papelão cortada em cima (como um cofre), encapada com papel colorido, decorada com os dizeres “MOTIVOS”
• Papel cortado em quadrados de, aproximadamente, 10x10cm2
Momento de apresentação:
Início: “Olá! Sou a nova Contadora de Histórias do PCP. Vim para trabalhar com vocês o 'Universo das Histórias'.
O universo das narrativas, tanto orais quanto literárias (aquelas, escritas nos livros), é extremamente vasto e plural.
E, como saber o que trazer pra Sala de Leitura?”
(Distribuo os papeizinhos enquanto falo)
(EXIBO A CAIXA)
“Esta, como vocês podem ver, é uma ‘Caixa de Motivos’ e funciona assim: vocês devem escrever neste papel um ou mais ‘bons motivos’ pra gente se encontrar toda semana na sala de leitura.
Pode ser qualquer coisa, assunto ou tema do seu interesse. Será a partir daí que entraremos no 'Universo das Histórias'.
Estou me comprometendo a buscar narrativas, contos, mitos, lendas, filmes, que chegarem mais próximas do que vocês colocarem no papel.”
A historia que me contaram
No primeiro dia na escola iniciei as atividades com a turma 1400, onde haviam 23 educandos, entre 10 e 12 anos. Fiz a abertura da dinâmica, provoquei-os com a palavra “MOTIVOS”; pedi que refletissem sobre o que seria um bom motivo para nos encontrarmos toda semana, escrevessem no papel e depositassem seu motivo na caixa.
Expus que as atividades que faríamos girariam sempre em torno de seus interesses. Para isso, eles deveriam escrever no papel que tinham recebido alguns
“bons motivos” para que eu buscasse histórias que tratassem desses temas; e os trabalharíamos através das narrativas, já que há histórias sobre tudo.
As perguntas logo começaram:
- Tia, eu gosto de macarrão com carne moída, pode?
- Pode - eu disse - buscarei alguma história que fale do macarrão com carne moída!
(Risos)
- Eu gosto de lendas urbanas, pode?
- Sim, pode.
- Eu gosto de futebol, pode?
- Aham...
- Tem história de futebol?
- Sim, provavelmente...
- Tia, eu gosto quando não tem aula, pode?
- Pode...
- Eu gosto de brincar na rua, pode?
- Pode...
Até que um menino fez a seguinte pergunta:
- Tia, eu posso gostar de funk?
A seguir, a título de exemplo, um dos resultados obtidos e apresentadas pelas criancas na 'Caixa de Motivos'.
Diferente de todas as outras perguntas feitas pelas crianças, a organização da frase pedindo consentimento para gostar de um estilo musical produzido por afro-brasileiros, que vem do território da favela (como ele), que fala do cotidiano da favela (do qual ele compartilha), me chamou muito a atenção.
- É claro que pode! Mas perceba: eu virei aqui pra contar histórias e depois a gente refletir e trabalhar sobre elas. Por exemplo: “Você, você, você, você, você quer?” 3, tem história?
Todos responderam em coro:
- Não!
- “Mama eu, mama eu, mama eu, mama eu”, tem uma história?
- Não!
- Vocês sabem do que é feito uma história? O que é preciso numa narrativa pra “ser” uma história?
- Inicio, meio e fim, alguém disse.
- Isso! É claro que podemos gostar de funk - que é uma música muito legal! Mas para trabalharmos em nossos encontros - que serão sempre com história: quem me canta um funk que conta uma história?
Como eu não conhecia até então nenhuma produção recente no universo musical do funk que tivesse a estrutura da narrativa tão explicita como em Rap do Silva, do MC Bob Rum, de 1989 (que o busquei como um trunfo em meu repertório pessoal dos anos 90, quando eu mesma tinha sete anos de idade e ouvia o vinil "Funk Brasil"); aguardei pela resposta das crianças, pois imaginei que não haveria nenhuma história.
Entretanto, para minha surpresa, uma vez pedido o funk com história, todos, unanimemente e em harmonia, começaram a cantar (alguns, a dramatizar) a musica,
Uma história real, do MC Martinho:Eles estavam realmente motivados em me “cantar” aquela história que, até então, eu desconhecia.
Foi surpreendente e emocionante; ouvi atenta a narrativa, surpresa com o envolvimento de todos: era realmente uma coisa que todos compartilhavam, mesmo mais tímidos ou aqueles – como descobri depois – de orientação religiosa mais rígida.
Depois que eles apresentaram a performance da música, pedi que destacassem os 3 pontos mais importantes da história e que mais os tocaram, que foram (cf. a imagem):
• o amor/encontro da novinha com o guerreiro;
• a mentira que o “recalcado” plantou;
• a morte da novinha (assassinada pelo próprio guerreiro).
Após a análise da estrutura da narrativa, observamos que esses pontos principais organizavam-se dentro do eixo “inicio – meio – fim”.
Os educandos tinham dúvidas sobre algumas palavras, que, apesar de as utilizarem em seu repertório cotidiano, tinham ainda seu significado muito nebuloso, tais como, por exemplo:
• PERIFERIA
• ASFALTO
• FUNDAMENTO
• RECALCADO
• ALHEIA
• CONSPIRAÇÃO
• ELEMENTO
Esclareci informalmente o sentido dessas palavras a partir da sua associação com usos do cotidiano e combinamos de que eles me trariam no próximo encontro os significados descritos no dicionário. Iniciaríamos assim a construção de dois glossários em nossos cadernos: um afetivo – o que essas palavras significam em nosso cotidiano; outro formal, com a definição do dicionário.
Abaixo, definições informais que inauguraram a construção de nosso glossáario afetivo.
• PERIFERIA - sinónimo de favela, mais utilizado em São Paulo onde as favelas ficam na Zona Periférica - na beira - da cidade.
• ASFALTO - rua pavimentada, metáfora que representa lugares que tem rua asfaltada e por isso são mais “ricos”.
• FUNDAMENTO - um início, uma base. No caso da novinha e do guerreiro é como se tivessem o namoro como o objetivo comum, um fundamento entre os dois.
• RECALCADO - invejoso, “traíra”.
• ALHEIA - do outro, que não é seu.
• CONSPIRAÇÃO - um plano contra alguém
• ELEMENTO - nesse caso é como uma gíria, “perigoso elemento”, uma forma de dizer que essa pessoa não é um bom amigo.
Após essa atividade, contei a eles outra história de amor “bem parecida”, uma narrativa oral que, como a da musica cantada pelo MC Martinho, também superou limites de território - e tempo - e até hoje é contada também:
- Que história triste essa, da novinha e do guerreiro (...). Me fez lembrar outra história de amor que atravessou tempos e territórios...a história de Romeu e Julieta (Otelo teria sido bem mais pertinente, pela relação da mentira, mas não me veio a mente no momento)
Eles ouviram atentos, uns conheciam por algum filme que viram na TV.
Percebemos as semelhanças, a diferença do “problema” – que, no caso de Romeu e Julieta, foi uma “falha na comunicação” – , do plano (fundamento) que tinham em ficar juntos.
O tempo da oficina acabou, eram 10:20h agora.
Sai dessa primeira turma ávida para que o processo se repetisse. Foi incrível!
Passei na Sala de Leitura, me muni de alguns exemplares de dicionário e segui para a segunda turma.
E o processo se repetiu em todas as turmas atendidas naquela primeira manhã de oficinas de contação de historias em todas as turmas, o funk apareceu como elemento de predileção e interesse das crianças.
DIA 2
Retomamos a relação da narrativa presente no funk “Uma história real” com o clássico de Sheakespere, Romeu e Julieta. Relembramos e analisamos a estrutura, os elementos semelhantes, os diferentes como contexto histórico e a localização dos personagens.
Retomamos também as palavras e seu significado descrito no dicionário.
Cantamos, mais uma vez - baixinho e somente uma parte da música - pois eles adoravam cantar.
Propus que imaginássemos um outro final pra a história da Novinha e do Guerreiro.
Quem quisesse compartilhar com os amigos poderia ler em voz alta.
Na maioria das versões ele não dava ouvidos ao recalcado e ficava tudo bem.
Expliquei informalmente o conceito de paródia e pedi que, para nosso próximo encontro, eles me trouxessem paródias de qualquer musica: autorais ou não.
- Pode ser “proibidão”?
- Pode ser qualquer música sem palavrão, sem violência, sem ofender ninguém.
A atividade não era obrigatória.
DIA 3
Apresentação das paródias.
A o funk proibidão do MC Vitinho Hoje eu vou partir pra essa missão foi o mais citado pelos meninos em trocadilhos como “hoje eu vou cortar meu cabelão”, “hoje eu vou comprar um real de pão” e “hoje eu vou tomar um sorvetão”. As crianças não cantaram a letra toda, mas somente até a “missão” .
A maioria das meninas levou a música Agora eu tô enquadrado, do MC Maloqueiro, parodia da música Amar não é pecado, de Luan Santana.
Foi uma atividade muito divertida, toda a turma participou e demonstraram ter compreendido bem o conceito de paródia.
Dia 4
Com a autorização do professor, dei continuidade à atividade utilizando o funk como instrumento pedagógico.
Atendi a turma no teatro do pátio, com um computador e uma caixa de som e projetor.
Experimentamos audiovisualmente duas versões da música Rap do Silva, a original do MC Bob Rum e a outra da banda Chicas.
Alguns educandos já tinham ouvido seus pais e/ou tios “curtindo” essa música.
Gostaram muito da versão das Chicas. No CIEP eles fazem oficina de Maracatu e por isso reconheceram os instrumentos.
Analisamos a estrutura da história e falamos abertamente sobre o cotidiano violento das favelas, território onde todos os educando moram.
DIA 5
Com a autorização do professor, dei continuidade à atividade utilizando o funk como instrumento pedagógico.
Experimentação audiovisual da música “Tá tudo errado”, dos MCs Junior e Leonardo.
Após a audição da musica, realizei uma leitura dramática da primeira estrofe e fomos, estrofe por estrofe, destacando as palavras escolhidas pelo grupo, que foram primeiro definidas informalmente; depois, investigadas no dicionário
• LIBERDADE
• CULTURA
• ACUADA
• PORRADA
• IRA
• MANDADO
Sugeri as palavras
• DIREITO e
• RESPEITO.
Buscamos essas também.
Vale ressaltar que a atividade de buscar as palavras no dicionário tornou-se uma corrida onde pequenos grupos formavam-se e competiam para ver quem achava a palavra primeiro.
Uma reflexão sobre as atividades desenvolvidas na Maré - A narrativa poética do funk e suas possibilidades pedagógicas diante da Lei 10.639/03.
A dinâmica do desdobramento do primeiro encontro foram sempre muito flexíveis e baseadas nos sinais de possibilidades que a própria turma colocava.
As dificuldades de se levar a frente as oficinas utilizando o funk como instrumento pedagógico foram muitas e acredito que são o reflexo dessa organização social fomentada e mantida pela mídia e outros veículos formadores de opinião.
A escola, distanciando-se de algumas necessidades e urgências de seu corpo discente, torna-se fechada para manifestações culturais genuínas; pois estas ainda não estão legitimadas no senso comum.
Vale lembrar que a indústria fonográfica elege o conteúdo a ser destacado no mercado e que, na maioria das vezes, as produções musicais diferenciadas (chamadas por alguns atores do movimento funk de “funk consciente” ou “funk protesto) tornam-se inacessíveis a maioria da população, adeptos ou não do ritmo.
O reflexo do preconceito que a sociedade tem com o funk e os funkeiros se condensa na pergunta "posso gostar de funk?" feita pelo estudante, um sintoma também de que o processo de formação de identidade e auto estima desses jovens é diretamente influenciado pelas representações feitas pela mídia, reafirmadas também no espaço escolar: o funk, na maioria de suas aparições na mídia, esta diretamente associado ao tráfico e ou a extrema sexualização etc.
Qual espelho disponibilizado pela sociedade para refletir este sujeito?
Por quanto tempo mais nós educadores faremos uso dessas lentes distorcidas para olhar o mundo?
A forma como o funk apareceu durante a dinâmica “Por um bom motivo” foi muito marcante e motivadora. A pergunta “eu posso gostar de funk?” nos levou a inúmeras possibilidades de atividades pedagógicas em torno do estudo das narrativas que esse vasto universo musical nos disponibiliza; universo tão próximo de nossos educandos, tão parte de seus cotidianos.
Pudemos associar a música funk Uma história real, do MC Martinho, à literatura clássica de William Shakespeare, aumentando assim o repertório dos alunos e o meu.
Técnicas de pesquisas foram observadas e empregadas durante as consultas dos dicionários, a criação de um glossário e, em alguns casos, consultas na internet (como por exemplo, na busca das paródias).
Respeitar o pedido pelo funk e flexibilizar o programa de atividades incluindo-o e trabalhando-o como dispositivo pedagógico de pratica e analise textual foi imensamente rico, produtivo e prazeroso; para mim, como educadora e, visivelmente, também para as crianças.
As oficinas eram recebidas com muito entusiasmo e as crianças concentravam-se durante a exposição das possibilidades de associação que poderíamos desenvolver a partir do primeiro objeto – a palavra. Participando ativamente, contribuindo de forma criativa e fazendo perguntas comprometidas com a reflexão proposta pela atividade, relacionando o significado das palavras e como elas se apresentam em seu cotidiano, reflexões que culminavam em questionamentos, como por exemplo:
- Por que o “proibidão” é proibido?
- Qual o significado da palavra “fundamental”? (Associada diretamente ao Ensino Fundamental).
Acredito que a utilização do funk como instrumento pedagógico e lúdico na sala de aula é pertinente, pois, lembrando Paulo Freire, a leitura é bem mais que decodificar palavras: é ler o mundo (cf. FREIRE, 2003). Muito além de apresentar-se como um possível objeto para conduzir uma atividade educativa lúdica e funcional, o funk foi a porta que as crianças me abriram pra entrar no mundo deles; para criarmos um vínculo e iniciarmos uma relação com a proposta tácita de cumplicidade e aceitação mútua, com o respeito essencial para um bom desenvolvimento no processo de aprendizagem, para além do espaço escolar.
Apesar de desenvolvermos atividades de produção plástica e textual sobre os temas abordados nos relatos narrados e/ou cantados; lamentavelmente, por solicitação da coordenação da escola, não pude continuar o trabalho com narrativas utilizando a música funk como dispositivo, pois a atividade lúdica envolvendo a música e o jogo de investigação das palavras (que causava também muita excitação e barulho) era vista como recreação ou baderna.
O pedido “posso gostar de funk?”, seguido da solicitação da coordenação para que essa atividade fosse interrompida nos mostra o preconceito que há na escola e que, sim, ele alcança até os mais jovens adeptos do ritmo (presente no cotidiano de todos) que apareceu nos depoimentos como um tema de interesse da grande maioria dos educandos. Isso nos aponta algumas questões, reflexões e urgências:
Esse elemento cultural da produção musical de moradores de territórios populares historicamente marginalizados e criminalizados, não é apenas tido como inadequado dentro da escola: ele não é considerado como cultura.
“Posso gostar de funk?”, vindo de uma criança, morador de território popular, reflete o quanto a escola é extremamente intolerante e preconceituosa não só com o estilo musical em si, mas com os sujeitos produtores e consumidores desta música, que é criminalizada, seja pelos relatos violentos que denuncia ou pelos apelos sexuais ou de apologia criminosa.
E na escola, ambiente onde a diversidade deve ser aceita, onde o respeito deve ser fomentado; as crianças não se sentem seguras em afirmar-se diante do educador como – que este caso específico nos apresenta – não sabem se “devem” ou se “podem” se identificar com um elemento da cultura que é, alem de parte de seu território, parte deles mesmos.
“Não é reprimindo a juventude e censurando a arte que nossos problemas vão deixar de existir. Se queremos ouvir apenas ‘músicas bonitas’, precisamos construir uma sociedade melhor, sob pena de exigirmos hipocrisia e negligência dos MC’s.
Funk só será livre quando ninguém mais for perseguido e discriminado por gostar, ouvir ou cantar FUNK!”
APAFunkBibliografia
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. In: A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 45ªed. São Paulo: Cortez, 2003.